Uma das vantagens de dar aula à noite é que acabo não ficando viciada na programação da tv. Devo confessar q antes de ser socióloga e profa. de Sociologia sou uma noveleira e com o tempo acabei desenvolvendo um senso crítico para além da expressão de papel de parede de certos atores e atrizes. No entanto, lembro de ter comentado em algumas salas, se o assunto acabava levando a tal, sobre essa nova novela das oito (nove) por ser a primeira protagonista negra num país de um racismo tão velado q mtos vão responder q não existe. Enfim, na semana passada foi ao ar uma cena mto interessante para nossa discussão sobre violência (2.anos e 3TA); desigualdade social (1TA); indústria cultural (2TA e 2TB); movimento feminista e movimento negro (3.anos) e Etnocentrismo (1.anos) dada à força simbólica da representação. Fiquei pensando se valeria a pena dizer, até porque a maioria de vcs, como eu, estavam em sala e não viram nada, enfim. Mas, como esse é um espaço para reflexão sobre questões sociais e o fato de não termos visto não significa q não existiu, me levou a procurar a cena na net e a assisti-la para formar minha opinião. Vamos a ela.
A cena q me deixou preocupada refere-se ao momento em que a personagem de Taís Araujo, Helena, pede perdão à mãe de Luciana (Aline moraes). Numa cena clichê de inúmeras novelas, a personagem de Lilia Cabral (Teresa) acusa Helena pelo acidente e esta roga perdão ajoelhando-se diante da mãe revoltada, que reage dando-lhe um tapa no rosto. O q há demais ai? A violência simbólica (e física) da cena em que Helena (ex-mulher forte e decidida) sucumbe diante da poderosa Teresa parece extrapolar os limites da trama e refletir um pouco mais o q é a nossa própria sociedade. A falta de verossimilhança na construção da personagem e sua posição neste momento, q foi sendo preparado mtos capítulos antes, deixa evidente q a acusação maior não vem do acidente em si, mas do fato de ela, Helena, estar onde não poderia ter chegado, não só para a personagem Teresa, mas para o próprio autor, já q a construção das duas personagens são frutos do modo como ele percebe e representa a realidade que o cerca. Assim, a visão de mundo de dominantes e dominados coincide e reitera essa mesma dominação, porque há a interiorização, por parte da personagem Helena, da culpa, ou seja, o reconhecimento da dominação em estado puro.
A indústria cultural como estamos trabalhando em sala aniquila as diferenças e transforma tudo em uma mesma coisa, homogênea, de consumo garantido. Em um país marcado pela desigualdade racial e social a cena tb reitera os mesmos espaços e posições sociais pré-determinadas para cada classe social e cada grupo étnico, historicamente e socialmente construídos. Por que mudar se é fato que esse produto vende tão bem assim a décadas ou séculos se pensarmos na literatura tb?
Mas , o q dizer do discurso sobre o aborto e as maldições rogadas à personagem que cometeu tal monstruosidade, não tanto por ela em si, mas por ter construído sua carreira, sua vida profissional em cima disso? O movimento feminista luta a décadas por direitos iguais entre homens e mulheres, e uma das reivindicações é o direito ao aborto. Mesmo não concordando com o aborto, a cena não me convenceu, pois mais do q discordar, o autor da novela procura punir a mulher q o faça, não pelo fato em si, mas por colocar sua vida profissional acima do seu papel “natural”, e portanto, compulsório, de mãe. Além disso, na semana do dia da consciência negra a cena q marca obviamente os papéis sociais estabelecidos para negras e brancas no Brasil deixou o movimento negro muito incomodado também, pois se a luta por direitos iguais, a busca pela valorização da identidade negra ainda se depara com cenas como essa, q mais parecem saídas de Escrava Isaura ou Sinhá Moça, mostram q nossa sociedade precisa lutar ainda mais contra a manutenção desses estereótipos e pela desconstrução dessa visão etnocêntrica, em q um grupo julga-se tão superior aos demais q mesmo qdo aponta para uma ruptura com os mesmos estereótipos (primeira protagonista negra na novela das nove) precisa demarcar por outras vias sua posição de poder na sociedade enfatizando, de uma outra maneira, quem manda e quem obedece, de joelhos.
Agora, falando como noveleira… rsrs espero q Helena tenha uma reviravolta, q a personagem caia em si e volte a ser verossímil com o q parecia ser no começo da novela, forte, corajosa, decidida… Embora, acredite q a partir de agora Luciana vá se tornar a nova protagonista. Acho a interpretação de Taís Araujo mto boa, mesmo com um texto mto aquém do q o autor já fez em outras novelas. Por outro lado, ele deve ter visto as críticas do movimento negro, feminista, enfim… e mesmo a pressão da própria indústria cultural via Ibope, q tem marcado indices nao mto agradáveis aos patrocinadores, possa levá-lo a mudanças, enfim. Mas, e ai, o q vcs acham?